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Diziam que Srta. Fiona sabia preparar remédio para quase tudo.
Para espantar pesadelo, tinha lavanda colhida antes do sol. Para coração desanimado, guardava bergamota em pequenos frascos amarelos. As rosas cuidavam das tristezas que ninguém conseguia explicar, e os lírios-do-vale devolviam serenidade aos pensamentos muito barulhentos.
Havia, porém, males que nem mesmo Fiona sabia curar.
Certa noite de chuva, alguém bateu à porta da apoteca.
Era um pequeno elemental, encharcado e coberto de lama. Trazia nos braços uma mala vazia e, nos olhos, um medo que parecia grande demais para seu tamanho.
— Perdi o caminho de casa — contou ele.
— Seu nome também? — perguntou Fiona.
O elemental pensou, pensou e começou a chorar. Havia perdido o nome, o caminho e até a lembrança do lugar para onde desejava voltar.
Srta. Fiona consultou seus livros, remexeu gavetas e perguntou ao caldeirão se conhecia alguma receita. O caldeirão soltou apenas uma bolha, como costumava fazer quando não sabia a resposta.
Seu Frederico, chamado às pressas pelo bilhete que encontrara entre as flores do Jardim Gramado, chegou trazendo consigo um ramo de lavanda e alguns lírios-do-vale. Depois de examinar o pequeno viajante, disse:
— Talvez ele não precise se lembrar do caminho. Talvez precise se lembrar do cheiro de casa.
Fiona compreendeu naquele instante. Casas podiam mudar de lugar, perder o telhado ou desaparecer atrás da mata. Mas sempre deixavam algum perfume guardado dentro de quem havia sido amado nelas.
A alquimista acendeu o fogo.
Colocou no caldeirão a bergamota, para despertar a claridade das manhãs; a lavanda, para devolver o sossego das noites; as rosas, para recordar o carinho; e os lírios-do-vale, para trazer de volta a ternura das coisas pequenas.
Acrescentou o almíscar, quente como um abraço, e abriu sua última fava de baunilha — aquela que guardava para uma ocasião tão importante que talvez jamais chegasse.
— Tem certeza? — perguntou Seu Frederico.
— Se não for para ajudar alguém a encontrar o próprio lar, para que serviria guardá-la?
Quando Fiona mexeu o caldeirão, o perfume atravessou a apoteca, escapou pelas janelas e correu pelas veredas. O elemental fechou os olhos.
Lembrou-se de uma manta sobre a cama. De uma voz contando histórias. De uma janela aberta depois da chuva. E lembrou-se de que seu nome era Lume.
Do lado de fora, o aroma transformou-se numa pequena trilha dourada. Lume seguiu aquele caminho entre árvores e rios, acompanhado por Fiona e Seu Frederico, até encontrar uma casinha iluminada no outro lado da mata.
Desde então, Srta. Fiona deixou de dizer que sua apoteca possuía remédio para quase tudo. Passou a dizer que ali eram preparados perfumes para aquilo que não cabia em palavra alguma.
E em sua prateleira principal colocou o frasco daquela noite: bergamota, lavanda, rosas, lírios, almíscar e baunilha. Na etiqueta, escreveu apenas:
“Para quem precisa se lembrar de onde mora o seu coração.”
Na manhã seguinte, ao retornar ao Jardim Gramado, Seu Frederico percebeu que algo estranho havia acontecido: todas as flores de seu herbário haviam perdido o perfume.
Antes que pudesse chamar Fiona, uma brisa atravessou o jardim trazendo uma fragrância desconhecida — flor de cerejeira, lírios, rosas brancas e jasmim. O aroma vinha das veredas mais profundas do Pantanal.
Fiona e Frederico decidiram segui-lo, sem imaginar que aquele caminho os levaria ao encontro de Dona Onça, a guardiã das águas, das matas e dos segredos daquele lugar.